Entre transportes apinhados, fugindo ao gado com pressa, pensei para mim,
- Será que não se movem, que não acordam, que não gritam?
Chegando ao próximo, sentei-me. Olhei em volta á procura de companhia para aqueles trinta minutos de solidão. Encontrei, estava mesmo á minha frente, de costas.
Com cabelo liso e fustigado pelo vento, com dedos finos a folhear ficção. Conhecia aquele cabelo, de outros dias sem rumo e cansado.
Dentro daquela carcaça de um azul desligado e seco, não demorou muito tempo para repousar os olhos noutro indivíduo, alegre e bonacheirão, a forçar um sorriso nos colegas de trabalho. Cansado mas sempre com vigor para que naqueles trinta minutos, esqueça a apatia da existência.
O azul tornou-se num verde de veneno ao olhar para os olhos da minha companhia, olhou para o lado, vislumbrei a cor da esperança.
- Será que não se move, que não acorda, que não grita?- pensei eu novamente.
Ouvi de repente vários temas a serem espalhados pelo ar, psicologia, benfica e saídas á noite. Interessa-me alguns, ouvi relutantemente os estudantes, não deixando de contrapor em pensamento alguns tópicos mais sórdidos da teoria da psicanálise, do fora de jogo e dos sapatos adequados para a festa na casa do Miguel.
Senti o olhar perdido dos restantes Outros, nos telemóveis, jornais e afins. Recuso-me a ouvir Música, procuro descanso nas histórias desinteressantes da vida Deles e do meu (in)consciente obsessivo diálogo egocêntrico.
Levantou-se, saiu da carcaça azul e entrou num mundo diferente, incolor, assim sem aviso. Nem oportunidade tive para me despedir dos cabelos lisos com um olhar tímido e sincero.
Moveu-se. Acordou. Não ouvi o grito.
Amanhã componho a minha tarde novamente com outra companhia, outros tópicos e diálogos.
vou Vivendo o mundo dos Outros, enquanto o meu... bem,
vou dormir.